segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Outras vidas

Vi-me comprimida dentro de um corpo que não é meu. Obrigada a olhar para dentro: uma pomba branca cruzou a escuridão das minhas pálpebras fechadas; um horizonte em solo árido, rachado pelo sol ardente e a seca nordestina, apareceu como um slide. Paisagem triste, porém bela. O céu de um azul anil, o pôr-do-sol a meio palmo do fim, uma única árvore magra, ausente de folhas, sobrevivente na terra laranja. Senti-me jovem, comprimida dentro de um corpo que não é meu. O olhar no horizonte isolado, seco e infinitamente só. Tem vezes que eu esqueço de respirar. A alma precisa de um corpo, o corpo precisa de ar. O encontro de almas é tão efêmero quanto roçar dos corpos. O grande momento só acontece quando os corpos se unem simultaneamente às almas.
Vi-me comprimida dentro de um corpo que não é meu. A minha alma sente não pertencer a lugar algum. Na escuridão das pálpebras fechadas, minhas mãos idosas tem unhas sujas de terra. Os pés pequenos, sapatilhas pretas de pano. O rosto coberto pela burca preta, os cabelos grisalhos escondidos, a pele tão marcada pelas rugas, quanto o solo cor de tijolo da outra deixava-se rachar pelo sol. Eu rachava pelo tempo. Do lado direito uma senhora chora em silêncio, cabeça entre as pernas. Do lado esquerdo outra senhora murmura uma prece. Eu aperto tão forte a correntinha de ouro enrolada na minha palma direita que ela corta a pela seca. Uma gota de sangue escorre. O horizonte é um corredor cheio de mulheres e burcas negras. Tem vezes que eu esqueço de respirar. Não sei se a dor, a pressa de sair dali, ou o falta de palavras. O grande momento é a morte.
Vi-me comprimida dentro de um corpo que não é meu. Nos olhos fechados, a vida parece slide de filme dos anos 70. Sou uma criança que brinca de rodar. Rodar, rodar, rodar. Rodar cada vez mais rápido. Quem sabe assim a alma de desprende desse corpo que não me deixa voar? Os objetos em volta do corpo que roda perdem a forma.. Parede amarela, vaso chinês, Monet, boneca de porcelana, cinzeiro sujo, livros de capa de couro, sofá encardido, ganham a mesma cor: cor de vento. O grande momento é quando fecho os olhos de olhos fechados. Por um minuto me sinto cor do vento. Pena que sempre vem a tontura do corpo, que faz a alma tropeçar.
Vi-me comprimida dentro de um corpo que não é meu. Nos olhos fechados, o medo de abrir. A vida parece mesmo flashe de realidade, principalmente quando há consciência das pálpebras grudadas. A cabeça gira sem rodar. São pensamentos de lá para cá, num vai e vem de idéias, sempre rápidas de mais para se concretizar. A mente é mesmo bomba relógio terrorista. Máquina sabotadora dos grandes momentos. Dá espaço que ela pensa, analisa, descreve, trabalha, inventa, sonha, vive, escreve, faz, enrola, desabotoa, desalinha, constrói tudo outra vez, sempre diferente. O grande momento há de ser quando ela pára. Há de ser. Nem que seja em outro corpo.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Eu sei

O corpo quer domir, a cabeça quer pensar, a mão anseia segurar o cigarro, mas os dedos querem escrever. A boca quer beijar, alguma parte de mim quer dançar, mas os olhos estão cansados de enxergar além.
“One day I’ll grow up
I’ll be a beautiful woman

One day I’ll grow up
I’ll be a beautiful girl

But for today I’m a child”

Antony & the Johnsons

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Monalisa Pura

Ou , deixa estar jacaré que a maré há de secar
Ou, a vida é mesmo muito estranha
Ou, um quinhão por uma vida regrada
Ou, a partir de amanhã tudo vai ser diferente
Ou, sobre madaleines, macarrons, sushi, padres, zoológicos e astrologia

Quando o despertador tocou às 6h30, como era de se esperar quando o alarme toca, eu apertei o botão que me dá mais cinco minutos na cama e virei para o lado direito, travesseiro em baixo do joelho esquerdo dobrado, perna direita esticada, edredom até a orelha, tudo em seus devidos lugares, só mais cinco minutos não vai ter problema nenhum. Quando virei para o lado esquerdo e estiquei o braço para alcançar os óculos, pegar o celular e olhar as horas, vi que já eram 9h30 e eu estava atrasada de novo. Ah não, começou, e eu não entendo mesmo porque não consigo seguir uma vida regrada de gente normal, com hora para dormir e acordar, gente que não é tão mimada e consegue no mínimo obedecer o despertador e diferente de mim, não faz só o que quer. De hoje em diante eu quero fazer planos e chega de energia gasta com aventuras que não levam a lugar nenhum. Decidida a mudar de vez toda uma filosofia de vida, fiz como dizem os livros de auto-ajuda e a filosofia oriental e comecei pelas pequenas coisas. No café-da-manhã troquei iogurte com aveia por meio papaya, um pedaço de queijo minas e uma xícara de café preto. Talvez o erro tenha sido clicar na página do horóscopo gravada na minha lista de “favoritos”, por que sei, que partir do momento que li as primeiras linhas sobre o dia de hoje, decidi também que não leria mais horóscopo, porque eles estão sempre certos e isso influência muito tudo ao meu redor. O de hoje era uma mistura de “libertar as amarras que prendem a alma ao passado“, com “não acreditar nas coisas que acontecem” e “preguiça adota máscaras enganosas”. Eu que já sentia que seria um dia muito estranho, tinha agora a certeza. “Vivemos num mundo de cobras”, era a frase de uma conhecida no MSN. “Quem nasce para lagartixa nunca chega a jacaré”, a da outra. E o mundo já parecia um zoológico, quando um beija-flor verde garrafa entrou junto comigo pela porta do carro, na boa, eu comecei a não acreditar nas coisas que aconteceriam dali em diante, MESMO. Vamos aos fatos: Um e-mail chega à minha caixa de entrada. “Parabéns pela reportagem, blablablabala … A foto do abre é um dos melhores retratos que vi em toda a história da revista, monalisa pura”. Isso mesmo, a pessoa usou “Monalisa Pura” como adjetivo. Me diga se não é mesmo sensacional. Enquanto isso, o Marechal imprime 20 páginas. Desce para pegar as impressões no andar de baixo. Sobe. Gargalha. Diz: “Monalisa Pura!”. Imprime mais 20. Desce. Sobe. Ri. Diz: “O romance tem 500 páginas, foi recusado por duas grandes editoras. É que Anna, 150 páginas são só de sacanagem”. Imprime mais 20. Desce. Sobe. Ri. Passa os olhos pela página. Diz. “Justamente as 150 que estou imprimindo. Monalisa Pura!”. Gargalha. Monalisa Pura vira sinonimo de maravilha, sensacional, incrível, e o que mais a sua imaginação mandar. Até que os padres da igreja colada ao jornal, começam uma partida de futebol. E como qualquer partida de futebol, o espetáculo fica por conta da torcida, que vibra: “ Olê, olá, São Judas vem aí, e o padre vai pegar” , “Jesus! Jesus! Jesus!”, “ê ô, ê ô, Jesus é o terror!”. Aí o Nelson diz que 33 é veterano, e o Júlio completa que diferente do Pelé, Jesus soube a hora de parar. E piadinhas é o que não faltam, e alguém solta “Monalisa Pura”. E todo mundo ri muito. Aí corre o boato que o estagiário foi o enterro do Fausto Wolff e perguntou para o dono do jornal quem era o dono do jornal, e isso não é piada. E no meio disso tudo, vem o outro e me diz no google talk que “gente com cara de madelaine não sabe achar bangu no mapa”, e eu digo que surpreendi o outro por gostar de cabrito enquanto ele achava que eu tinha cara de sushi de cinquenta reais, e ele insiste: “você não tem cara de sushi, tem cara de madaleine“. Esse aí ainda vai se surpreender muito comigo, eu sou ótima de mapa. Não que eu queira achar Bangu, mas enfim... o chefe reponde o meu e-mail "segue o texto para essa semana" com uma única palavra: “Tintuntá”. E eu sem entender porque não consigo ter uma vida regrada…. Deixa estar jacaré, que a maré há de secar.

domingo, 7 de setembro de 2008

Previsão do tempo: chuva forte com rajadas de vento. Cuidado: risco de desabamento

O sol da manhã passou pelo vidro da janela e um feixe de luz refletiu sobre as pétalas de flor laranja espalhadas pelo chão do hall. Os pés descalços sentiam a textura do tapete de palha. A porta entreaberta deixava entrar o vento forte que antes despetalara as flores do arranjo em cima da mesa. A luminosidade do dia que começava a fez franzir os olhos e o nariz. A pele pálida e sem cor pedia o abrigo escuro do quarto, o calor da cama, o afago do sono. A camisola curta de algodão branco deixava transparecer o coração em pedaços. Alma encolhida pela falta do abraço. Lembrou do sonho do qual acabara de acordar. Ele o perseguia pelas ruas do Centro, mas ela não sabia que direção tomar. Todos os prédios pareciam iguais, as recepções tinham o mesmo ar e a presença dele atrás dela desaparecia no momento em que ela virava-se para encontrá-lo. O cheiro de gente deixava rastro. Angústia que tomava o peito agora amornado pelo sol da manhã. Vontade de não começar o dia, de voltar para a cama. Por mais tristes que fossem os sonhos, pior ainda seria a realidade. O cheiro do café fresco encontrava seu caminho pela casa. O estômago embrulhado pedia que ela chorasse na manhã de mais um domingo de sol. Que lindo domingo de céu azul, brisa quente e pétalas laranjas pelo chão. Lágrimas secas amontoadas no fundo do peito formavam um imenso mar, oceano profundo em seus mistérios. A dor tão íntima não alcançava os olhos, não se deixava correr pela face branca. As solas sentiram a segurança do piso de tábua corrida e caminharam em direção ao mármore gelado do chão da cozinha. Ela sentou na cadeira de plástico branco, de design moderno e formas arredondadas, cruzou as pernas e esperou que lhe servissem o café quente. Ouviu dizerem que a camisola estava curta demais, que deveria cobrir as pernas, que os ombros com as sardas de fora a faziam meio nua, e imediatamente lembrou que estava nua, mesmo vestida. Entregara sua alma, seus defeitos e qualidades, na esperança de que ele fosse capaz de entende-la. Que a segurasse em seus braços, reconfortasse com o abraço apaziguador e confirmasse aquilo que ela já sabia: que foram feitos um para o outro. O rosto sem sorriso, a vontade de silêncio, transparecia toda a dor que sentia. Perdia aos poucos o rumo e a palavra. Ele recusou o maior presente que ela poderia oferecer: coração, alma, corpo, carinho, noites e noites de risada. Ele disse que não, obrigada. E agora ela tinha que encarar mais um domingo de sol. Provou o café quente e decidiu voltar para o quarto. Ficar na escuridão é bem mais seguro que se aventurar numa tarde de sol, principalmente quando o vento quente avisa que por aí vem temporal. Ela vai desabar a qualquer momento.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

humpf

Só penso em Américo Pisca-pisca e suas abóboras. Américo fica sentado sob a árvore dizendo que o mundo é errado e que as jabuticabas, levinhas, deviam ficar em árvores baixas, rasteiras, e as abóboras, pesadas, deviam ficar nas árvores de troncos fortes. "No dia em que eu mandar no mundo", ele diz. "Tudo isso vai mudar". Ele adormece e cai uma jabuticaba na cabeça dele. Não preciso continuar a história, né? Agora, toda vez que eu penso que se fosse prefeita proibiria caminhões de circular pela cidade de 6 às 22hs; ônibus de entrarem em ruas pequenas; banheiros que são divididos em homens e mulheres, mas a pia é em conjunto; chocolate de engordar e outras coisas mais sem graça ainda, eu só penso no Pisca-pisca e suas abóboras. Ando precisando do barulho do silêncio, ou então, muitos abraços, alguns beijos e pelo menos um frasco de floral. E gostaria muito de contar ao Américo Pisca-pisca sobre a existência de uma fruta chamada jaca.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Non, je ne regrette rien

Fomos juntos na exposição de Clarice Lispector. Você disse que assim como ela só escreve quando quer, eu só faço o que quero. Concordei com a cabeça. Quando a mocinha do museu disse que eu não podia datilografar na máquina de Clarice, nem brincar de ser escritora e, sem precisar dizer nada, disse que as palavras de Clarice eram só de Clarice, nós trocamos olhares e sabíamos que pensávamos a mesma coisa: “Essa gente é mesmo muito chata”. Rimos muito, e veja só essa carta do Sabino, e aquela do Caio Fernando se dizendo fã, e Clarice foi uma mulher tão estranha, não me surpreende que seu mundo interno seja tão rico e seus poros transpareçam em cada vírgula, estejam ou não elas nos lugares certos. E chovia lá fora. E eu e você ríamos muito. Pensamos uma lista de coincidências, a começar por eu ler Sophie Calle ao mesmo tempo que você me mostrava um livro dela. E tudo bem que ela seja genial, mas um livro custar R$380 é mesmo um roubo. Eu também adoro o cabrito com arroz de brócolis e alho do Nova Capela e você não acreditou porque eu tenho cara de sushi de cinquenta reais. E conversamos sobre Turandot, Rimbaud, Semana de Arte Moderna, Mário de Andrade, porque Vinicius, me dizia você. A pilha de bolachas da Brahma crescendo geometricamente no canto da mesa, o papelão meio molhado esfarelando, e as mãos se tocavam, e quando quase lá, um pouco de floral para disfarçar. E ríamos muito. Torcicolo, não, pleonasmo. E listávamos infinitos motivos ao quadrado para ficarmos de fato juntos, mas o único que aparentemente nos mantém separados pesa mais que todas as razões e acasos. “Not to kiss again, seems like pretending. We loved, we laugh, we cried. The story ends, but we’re just friends…” dizem as notas de Stan Getz & Chet Baker, naquela versão que eu tanto gosto e aposto que você também. E as risadas foram levadas a outros bares, e por horas a fio a beber, já tripulantes da embarcação ébria, a como você gosta tanto de dizer, Cazuzear. E eu te perguntei como era mesmo aquela palavra que você gosta tanto e que significa algo como rápido, passageiro. Efêmero, é isso mesmo. E rimos muito. E como disse o velho Braga naquela crônica: “E fomos tocando pela tarde e pela noite, de um lado e outro, como se estivéssemos procurando uma pessoa amiga, uma pessoa que procurávamos a tanto tempo e que já havíamos esquecido quem era mesmo. E não tinha importância. De repente me contaste coisas amargas. Eu mirei tua boca, teus olhos e tua testa com um profundo respeito”. E entrelaçamos as mãos, e os corpos, e alma repleta de floral. Os bolsos lotados de chicletes baratos, o cheiro de sândalo e aquele verso que o vendedor disse e que na hora soou tão lindo e surreal, mas que já esqueci. E rimos com a entrevista de Vinicius na Tv Cultura, a minha foto na sua cortiça, e eu quase sufoquei no casaco de lã, e pediu que eu tirasse a blusa. E eu não tirei. Já estava despida e você concordou que eu pareço mesmo andar por aí de canga, com a alma livre e aberta para quem quiser olhar. Eu fingi concordar, sem precisar dizer que eu ficava muito mais a vontade com você. E fugi. Fugi pela varanda assim que veio o raiar do dia, pulando poças d’água de chuva como se tivesse feito algo errado. “Non, je ne regrette rien”, já cantou Edith Piaf. Ou quase nada.