terça-feira, 14 de outubro de 2008

Backspace

Acabou. Fim. Sempre chega esse dia e eu me lembro que alguém já disse que nunca há como saber se quando será a última vez. Talvez tenha sido eu que disse, mas já esqueci. A última vez. Algumas frases se acumulam perdidas e desconexas. Pensamentos sem sentido que denotam a escassez de idéias claras. A inspiração desaparece com a insônia. Tem dias que nosso último encontro é em momentos confusos sem lápis nem papel por perto. A última idéia que tive antes da insônia. O último suspiro antes de virar as costas. Pela última vez. Delete.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

... porque somos todos artistas ...


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terça-feira, 7 de outubro de 2008

Do alto da ponte...

Meus olhos estão fechando, meu pé não tem mais sola e dentro de mim não sei o que fazer com um frio intenso que não corresponde a temperatura ambiente. Fui no Moma duas vezes hoje, e só. Estou com medo de não conseguir ver tudo o que há pra sentir. Não sei se escrevo, se pinto, se fotografo, se filmo, se canto, se deixo em paz em silêncio. Uma paralisia toma conta da minha alma. A lista de infinitas possibilidades me faz querer pular da Brookling bridge, do topo de algum prédio de 50 andares, ou até mesmo me juntar aos ratos cinzas que cruzam os trilhos do subway. Um final magistral, tragicômico, digno de filme holywoodiano. Os últimos dias de Anna em Nova York. Isso aqui fosse um papel, eu rasgaria em mil pedaços e jogaria antes do pulo. Se nós fossemos uma folha em branco, faria uma bolinha e deixaria que o vento levasse pelas ruas secas da cidade que nunca dorme. Até isso é mentira. Nova York dorme muito mais que eu - até de férias. É que eu não quero perder nada. Sugar a vida, ler todos os livros do mundo, conhecer todas as artes já feitas, permanecer para sempre no centro do mundo, onde tudo e todos se cruzam, correndo, com pressa, vem ver, tornando todas as imagens borradas, uma fusão de cores em um só vento colorido. E eu fico a observar. Parada. Enquanto tudo a minha volta gira. A vertigem de olhar do alto da ponte. O impulso do salto. Pensar duas vezes. É madrugada em Nova York. As luzes não se apagam, mas nas avenidas, só eu e o meu cigarro. Os lábios rachados não sabem sorrir, nem chorar. A fumaça branca confunde-se com a que sai do boeiro. Mas isso é uma carta para você, só mais uma carta, e por isso vou até o final, por mais que o xizinho branco no quadradinho vermelho no canto direito da tela funcione como um imã para as minhas mãos. Eu resisto a forças externas enquanto consigo. Sou uma mulher forte, sem senso de direção, isso é certo, mas forte. Nova York e toda sua simplicidade geométrica e espacial me faz perdida. Não fui feita para coisas simples e rasas, você sabe. Nem essa raiva que se confunde aqui dentro me deixa em paz. As linhas do metrô se cruzam embaralhadas sob prédios que alcançam o céu. Eu me embaralho entre os imigrantes do vagão. Não tenho coragem de tirar a foto, é invasão de privacidade congelar a alma das pessoas assim. Não sou capaz. Mas bem que queria guardar para sempre a imagem da indiana vestida a caráter ao lado do muçulmano, também típico, sentados lado a lado com o jovem loiro de boné NY, entre o casal de franceses, no banco da linha E, no sentido Downtown, bem em frente de mim. Hablas español? Me pergunta uma senhora. Si, un poco, soy brasileira, digo em portunhol. Ela começa a falar o sotaque alongado, com a língua entre os dentes. Entendo que ela diz que eu pareço perdida. Pergunto a mim mesma em que sentido ela se refere. Fui do Bronx ao Brooklin sem querer. Estava no Queens e queria mesmo é ir para o Soho. Eu sei que no final acabo me encontrando. Tudo dá certo no final. Tudo dá certo. E a sua sorte é que essa folha é digital. E que eu sou forte, muito forte, e que no fundo eu sei. Mas do que isso. No fundo eu sinto. Não preciso de palavras, nem de atitudes de culpa pela parte de quem for. Me poupem dos detalhes, eu não falo espanhol mas entendo tudo . E na real, eu tenho um mapa no bolso. Não uso porque acho que a melhor parte de viajar é se perder, para depois se encontrar. No caminho, tudo é novo. Algumas esquinas reconheço, outras me surpreendem. Entre lá e cá, eu penso na ponte, no alto do prédio, nos trilhos do trem, em deletar essa página. O que me segura é saber sem palavras. É esse frio na barriga. E a confirmação que vem por MSN. O coração bate apressado. Mas eu sabia antes mesmo de me perder que eu gosto é da aventura. Você é mero detalhe. Isso tudo aqui é raiva dentro da fortaleza de uma mulher só.
Não deleto essa página. Mas também não envio.
Em silêncio, eu te deixo a minha paz.
Lidar com a tempestade fica por minha conta, que eu aguento.

“A arte é aquilo que ajuda a escapar da inércia. Outra vez os olhos.
Os dele produzem uma indiferença quando ele me conta o que é a arte.
Estou te dizendo isso há oito dias. Aprendo a focar em pleno parque. Imagino a onipotência dos fotógrafos escrutinando por trás do visor, invisíveis como Deus. Eu não sei focar ali no jardim, sobre a linha do seu rosto, mesmo que seja por displicência estudada, a mulher difícil que não se abandona para trás, para trás, palavras escapando, sem nada que volte e retoque e complete.
Explico mais ainda: falar não me tira da pauta; vou passar a desenhar; para sair da pauta.
Estou muito compenetrada no meu pânico.
Lá de dentro tomando medidas preventivas”
ACC.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Um dia despertei, sentei na cama e sorri

“Existem apenas pessoas, e em todas há um grão da verdadeira, e nenhuma delas tem o que do outro nós esperamos e desejamos”. (De verdade, Sándor Márai)

“Dá pra ver que eu chorei?…” Essa foi a última frase que li antes que De verdade, do escritor Sándor Márai, caísse do alto da janela do meu quarto e se espatifasse nos densos arbustos do jardim. Era uma noite no início de mais uma primavera, não havia estrelas no céu, o ar estava relativamente frio e podia-se ouvir as ondas estourando na praia de São Conrado. Antes que eu chegasse em “É estúpido, mas você sabe, somos assim estúpidas”, um vaga-lume pousou no meu ombro. A pequena luz verde piscante tornou-se mais um ponto entre as dezenas de pintas que colorem a minha pele. Com um salto brusco, soltei um grito contido e deixei o livro voar pela noite. A capa com a fotografia das mesinhas de um café vazias caiu bem entre as bromélias e a palmeira - a mesma árvore aonde os passarinhos constroem seus ninhos nessa época do ano. As páginas amassadas esconderam o resto da história; assim como a verdade se perdia entre mais uma ilusão. Alguém já deve ter dito algo como “pobres aqueles que acreditam”, se não disseram, escrevo aqui pela primeira vez.

Eu tenho medo de muitas coisas. Seres voadores, entre elas. Nada contra as asas, desde que as patas não pousem em mim. No entanto, durante toda a minha vida, espécies voadoras escolheram o meu corpo para o momento do descanso. No primário, estava pulando amarelinha no pátio da escola, quando uma borboleta amarela de bolinhas pretas - ou seria o contrário? - pousou nas minhas costas. Tirei a blusa ali mesmo, no meio de todo mundo, e virei piada entre as outras crianças até o fim do ano letivo. Anos mais tarde, fui atacada por um enxame de borboletas coloridas enquanto andava a cavalo na fazenda de uma amiga. Gritei tanto que o bicho disparou. Depois vieram os passarinhos e seus voos rasantes, mais algumas borboletas nos cabelos, e até mesmo uma pomba branca que achou que o meu ombro fosse poleiro e não arredou pé do parapeito da minha janela - isso me privou das leituras mais agradáveis - até que eu mandasse o jardineiro sumir com ela. A ave era tão branca, que parecia saída da cartola de um mágico. Até que veio esse vaga-lume me obrigar a sair no meio da noite, ao relento, em busca De verdade no canteiro.

Me equilibrei em duas pedras, pulei uma grande bromélia, coloquei os pés com receio entre a folhagem baixa, vi um lagarto fugir por entre o mato, e alcancei o livro ao pé da palmeira que eu vi crescer pela minha janela. No meio da noite, sob o relento, estava De verdade, molhado de orvalho, sujo de terra, com as folhas amassadas. Segurei o calhamaço de 445 páginas no mesmo segundo em que a luz acabou - isso aconteceu sem uma gota de chuva, o que tornaria o fato bem normal por aqui. Fiquei no breu, mas com a verdade nas mãos. No horizonte, o farol piscava vermelho e branco me mostrando o caminho. Entre a folhagem próxima, o vagalume verde. Pobres aqueles que acreditam que quando duas águias se encontram planam lado a lado. Águias voam. E assim como quaisquer seres com asas, me dão um baita susto ao se aproximar. Fiquei com a verdade nas mãos, apesar da escuridão da noite.

sábado, 20 de setembro de 2008

É tudo invenção

Ela disse que escreve sem saber o que escreve. Vai colocando as palavras na tela branca sem saber qual será a próxima. Quando vê, tem uma frase, depois um parágrafo e mais uma linha de sentimentos que não sabe reconhecer. Disse que fora a Feira de São Cristóvão encontrar a sua Macabéia, não achou. Voltou com cheiro de churrasco nos cabelos e gosto de castanhas-de-cajú velhas. Disse que quando é muito tarde da noite, ou muito cedo da manhã, abre os olhos e fica a escutar o silêncio. O silêncio faz zumbido que dói o ouvido, disse. Certa vez, escreveu a palavra regalo sem saber o significado. Soou bonito regalo e ele deixou assim mesmo. Descobriu que poderia ser presente em espanhol. Queria que fosse casca, ou caroço, mesmo que casca e caroço sejam praticamente antônimos. Desde a segunda série - que hoje deve se chamar segundo ano do ensino médio, não sei para quê - não escrevia antônimo. Chegou a pensar que a palavra não fosse essa, não lembrava de se parecer com Antônio, e sentiu a saudades de escrever sinônimo, onomatopéia, convexo e de resolver uma equação com x, y e z. Se bem que nunca tinha conseguido entender porque x era igual a zero. Disse que sonhara com formiguinhas andando por sua língua, passeando entre os dentes, subindo pelo céu da boca e saindo pelo nariz. Ás vezes achava que dentro dela morava um formigueiro, os bichinhos sempre trabalhando, por isso aquele buraco no estômago. A imagem me fez lembrar um cadáver, mas ela me acusou de mórbida e de não saber enxergar a beleza das coisas. Ela me disse que escreve sem saber o que escreve, só para que eu leia. E quando não tem nada para contar, inventa. Ás vezes quer me deixar com raiva só de maldade, aí me manda lindos contos de amor que não me incluem. Quando quer me deixar com ciúmes, diz que escreve para que ele leia - e a verdade é que sempre o faz. Quando quer me deixar triste, não me escreve e ponto, tampouco me procura. É de propósito, só porque eu gosto de você, disse-me, com ar implicante de menino da segunda série que quer namorar. Eu quero um abraço, eu disse, com ar de menina que precisa se encontrar. E assim fomos caminhando, sem saber o significado das coisas. (Coisa é uma palavra muito infantil, ela ainda é uma criança). Quando estamos no escuro, só mesmo a mão alheia faz o coração bater mais devagar - ela ainda não entendeu que qualquer mão não serve, tem que ser aquela que encaixa.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Your love alone is not enough

Quando te vi do outro lado da rua, esqueci do chão e tropecei no buraco. Você riu, eu fiquei roxa, mas fingi que nada aconteceu e você também. Outros braços seguraram a minha queda, eu fingi estar salva, e você acreditou. Prestou atenção nas mãos dele na minha cintura, os dedos entre os meus cabelos, deslizando pela nuca. Eu sorri antes que ele me beijasse, você viu, mas fingiu que não, e eu também. Quando os braços dele se enroscaram no meu corpo, a cabeça apoiada no meu ombro, eu abri os olhos e dei de encontro com os seus. We danced together on the roof of the party, we didn’t give a chit about what they would say. Eu fingi que dessa vez era igual e dentro de mim soube que você concordava. Você atravessando a rua decidido a me tirar dali, eu já estava vendo tudo, a confusão, eu dizendo que não sou sua, que você tem que perder essa mania, que não gosto de confusão, que se eu abrir mão de tudo por sua causa, você não consegue encarar e desiste. Mais um gole de chope, e seus olhos no fundo de mim, meu corpo pedindo para ir, esse seu jeito de me convencer de qualquer coisa, de sair de mim, de dizer que sim, que eu largo tudo para estar junto de você. E ele falando, segurando a minha mão, beijando o meu pescoço, e meus olhos sempre voltavam para os seus. Eu querendo me livrar de você, parar de sentir o seu cheiro, esquecer a gente atrás da pilastra, sem ligar para o que eles diriam. We didn’t give a chit. Eu dizendo não, você fingindo acreditar e eu também. A verdade é que eu sempre estarei no Braseiro e você no Hipódromo, você sempre vai sorrir quando eu tropeçar, nossos olhos sempre vão se encontrar na multidão, você sempre vai saber o que eu estou pensando, eu sempre vou saber te ler pelos olhos, e ainda sim, tudo vai continuar como antes. A lembrança de me perder em você. Testa com testa, a sua mão na minha nuca e aquela paz que eu nunca mais encontrei. Por isso que eu deixo o chope pela metade, os amigos na mesa, ele ali sem saber o que houve e prefiro simplesmente vir para casa. Eu nunca vou conseguir te ver do outro lado da rua sem tropeçar. You won’t make a mess of me .

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Anna sem Ana

"Ana me deixou e isto dói. Muito. O espetáculo poderia ser resumido nessa simples frase. Tudo o que é dito e o que acontece em cena é tão somente a ausência de Ana. Eu sem Ana. O texto é extraído do conto "Sem, Ana, Blues" em que Caio Fernando de Abreu pinta um retrato poético e doloroso de falta. Mas que falta é essa que Ana representa? No conto de Caio, trata-se de uma mulher que abandonou um homem. Mas, ainda que esse seja o seu significado primeiro, procuramos, na peça, trabalhar com outras possibilidades de leitura. A começar pelo fato do texto ser interpretado por uma atriz. Poderíamos, assim, estar falando de uma mulher que foi deixada por outra. Mas podemos pensar o sentido desta ausência para além da pessoa amada. A atriz em cena também se chama Ana. Portanto, Ana sem Ana. Uma pessoa que sente falta de uma parte sua que se foi com a partida de outra, do que ela era com essa outra pessoa. Ou então, tão somente a ausência de si mesmo. De uma parte nossa que ficou para trás simplesmente porque mudamos e deixamos de ser quem éramos, porque deixamos a nós mesmos. Ou ainda, Ana poderia representar a falta do que gostaríamos de ser, de ter, de viver. A ausência em si, porque sempre há algo faltando. Ana é o nosso eterno buraco. Porque por mais que Ana esteja com Ana, mesmo assim, e sempre, Ana estará sem Ana". (Ivan Sugahara)

Eu estou ficando sem Anna, e isso me assusta imensamente. Medo de me perder no buraco. De afundar na minha profundidade. Nossa, como estou intensa e chata! Ainda bem que você me entende e sabe que metade dessas palavras são drama, puro drama. Meu padastro me qualifica de "Terrorista", isso quando não me chama de "Meu nome é Cultura". Isso que dá nascer na família errada. Oh well, é Caio Fernando Abreu sem Ana.

"Quando Ana me deixou - Essa frase ficou na minha cabeça, de dois jeitos - e depois que Ana me deixou. Sei que não é exatamente uma frase, só um começo de frase, mas foi o que ficou na minha cabeça. Eu pensava assim: Quando Ana me deixou - e essa não-continuação era aúnica espécie de continuação que vinha. Entre aquele quando e aquele depois, não havia nada mais na minha cabeça nem na minha vida além do espaço em branco deixado pela ausência de Ana, embora eu pudesse preenchê-lo - esse espaço branco sem Ana - de muitas formas, tantas quantas quisesse, com palavras ou ações. Ou não-palavras e não-ações, porque o silêncio e a imobilidade foram dois dos jeitos menos dolorosos que encontrei, naquele tempo, para ocupar meus dias, meu apartamento, minha cama, meus passeios, meus jantares, meus pensamentos, minhas trepadas e todas essas outras coisas que formam uma vida com ou sem alguém como Ana dentro dela". (CFA)

Estou me perdendo de mim mesma e com muito medo do que está por vir. Estou abandonando Anna. Como será a nova Anna? Certa vez te disse que não me conhecia, que tinha medo de me envolver porque não me conhecia. Temo o conhecimento e o envolvimento que poderá vir com ele. Eu não quero me entregar. Tenho medo do que posso ser nas mãos de outro. Gosto do controle, por mais que muitas vezes o perca de vez - ainda bem que esses momentos só duram alguns segundos.

Tenho um buraco de angústia no peito. Parece um rodamoinho de vida.