quarta-feira, 11 de março de 2009

Da ilustração

O desenho de Luiza Pannunzio que ilustra o conto O Forasteiro que aprisionava as almas, escrito por Ana Miranda, para a revista Bravo! deste mês, me deu vontade de arrancar a página e mandar colocar moldura. Me deu também vontade de escrever - coisa tão rara nestes tempos que até dá um aperto aqui dentro do peito. É que enquanto o pescador sonha com uma chuva de anzóis e o bolso da camisa repleto de iscas, a menina de vestido de bolinhas e pé de pato foge do jacaré. Sem aceitar ajuda, nada sob os anzóis que caem do céu, tão ágil quanto uma tartaruga. A menina aproveita para pensar na vida enquanto se afoga. É que fizera um estoque de ovos e passara boa parte do tempo pisando neles.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Deixa o verão para mais tarde

Da janela do ônibus a cidade ganha outras formas. O Rio é uma grande avenida. Bailarinas tornam-se equilibristas, inebriadas tentam aguentar o peso do próprio corpo ao procurar sem sucesso apoio no ombro de palhaços que tropeçam nos próprios sapatos. Gargalhadas ecoam nas esquinas. A columbina aguarda a chegada do pierrô, mágico de peruca rosa. Vem meu amor, vem ver a banda passar. Esse ano eu não vou de marinheiro, nem de pirata. Esse ano eu vou assistir de camarote. Deixa o verão para mais tarde. A caixa de fantasias jaz intacta. Ali tem tapa olho de pirata, pulseira de cigana, chapéu de cowboy. Tem colar de havaiana, cartola de purpurina, confete, serpentina. Tem notas de um samba não cantado neste domingo de carnaval.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Suspira

Tudo em branco. Até que a nova caneta de pena - réplica idêntica a usada por Shakespeare - riscou a folha. A tinta manchou o dedo do meio e, como no naquele filme que ela esquecera o nome, já não havia mais como esconder que era escritora, ou fora. Um dia qualquer, quando as palavras surgiam com mais facilidade e a angústia morava no peito, fora escritora. Desta vez ela somente assinara seu nome. Afirmação. A pena era fora de época. Utensílio de outro século.

A mancha preta de tinta no papel, a mariposa no azulejo, o borrão na mente branca. O fim da clareza. A gente enterra o amor pensando que ele nunca mais vai aparecer. Até que chega o dia onde todas as palavras ganham sentido. E o borrão se espalha. E branco nunca mais é branco. Horizonte e ar ganham formas humanas. O outro é tudo que é preciso para respirar.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Salgadinhas de verão

In a good, very good trip

Pessoas que pensam com os pés bebem uns tragos e transformam a lucidez em delírios carnavalescos.

pensar com os pés = mostrar os sentimentos pela posição dos pés, como o clássico balançar dos tornozelos quando se está impaciente.

Se joga!

Eles ainda estão se jogando...
As asa-deltas?
Ainda estão se jogando...
Sempre e diariamente
Natural, asa-deltas são como passarinhos

Do buraco no céu

A lua cheia é um buraco no céu escuro.
Toca do coelho cinza.
Só vê quem está apaixonado

Janeiro

Como previsto, janeiro veio num suspiro longo, daqueles que saem lá de dentro do peito e aliviam a alma. Em janeiro, troquei as sapatilhas por havaianas, encontrei um amor de outros - muitos - verões. Vinho branco nas águas azuis de Angra. Fim de tarde tardio ao som das cigarras. Lua cheia nascendo por trás da serra alta de Petrópolis. Pôr do sol no Arpoador ao lado de quem se ama. Cosquinha nas costelas. Cerveja gelada a dois. Janeiro também veio com metas: ganhar mais, trabalhar menos, ter uma casa para chamar de minha. E a lua cheia se levantando no céu. Vestido de algodão. Cabeça encostada no peito de homem. Beijo na boca, beijo na orelha, beijo no pescoço, beijo no pé, não necessariamente nesta ordem. Semana sem trabalho e sem culpa. Pé na areia. Um balão vermelho no céu estrelado. Novo antigo amor: homem espantador de mariposas.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

O mar

Você se lembra do dia que nos conhecemos? Eu quero dizer o quanto eu te amo. Venha comigo, meu amor, vem para o mar. Eu quero te dizer. Só funciona se me deixar livre, se me deixar digitar aqui essas palavras, sentada na soleira do janela, no escuro, olhando a noite negra, vivendo no meu mundo paralelo. E é assim. Está na hora de deixar-me ser. O contrário não é amor. Se você me deixa andar pela rua, e pela sua rua, enquanto a noite cai. Se você me deixa comprar uma arma, nem que seja branca, dessas de partir o coração. Todo o resto é trilha sonora de sitcom. Anuncie aí a minha ida. Partida para o lugar onde seja livre nas ruas escuras. Acordar numa cidade com calor. Esse lugar pequeno, onde andar descalça é proibido, os olhos abaixam, esse lugar de pessoas sozinhas e tristes... Já disseram eu te amo mil vezes antes. Mas agora é diferente. É a mesma pessoa. A única pessoa. Mas se vou jurar, é melhor você estar sem nenhum sinal de honra, escutar o espaço e o tempo, me deixar entrar. Uma vez eu quis ser alguém que pudesse explicar os sentimentos. Sem franzir os olhos, ou arrumar o cabelo. Um vez eu quis. Aí veio o vento. Me levando pela sua rua escura. Nós nunca tivemos escolha. Eu preciso que você me diga que lembra. Levei a marca da arma. O peso no bolso, e depois , quando tudo se acalmou e você deitado no meu lado, de volta para mim. Depois. Tão perto, seguro, tão calmo. Bem, aí… Aqui está o meu amor. Vem para o mar, vem.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Estranhos sinais

Acontecimentos muito estranhos se sucedem. Estivéssemos nós na virada do milênio, seria esta a explicação para tantas coincidências em tão curto espaço de tempo. Já que não é o caso, convém procurar outra desculpa. Vamos aos fatos:
Chove muito em dezembro. Desde que o magma da Terra esquentou, há mais de 3 mil anos, e as encostas cariocas foram criadas, nunca se viu nada igual. Verão sem sol. Areia molhada de água doce, mar com água escura. Muito mexido, alertam os surfistas. Culpa do vento e da água que cai do céu. Essa mesma água pinga no banco do meu carro. As janelas estão fechadas. Goteira. Pinganimim. Tem um furo no teto. Tem um buraco perto da luzinha que ascende quando a porta fica aberta. Por ali passa a água da chuva do verão - não confundir com chuva DE verão.
Muito estranho.
Vinte e quatro chopes. Cumé? Vinte e quatro chopes! Quem bebeu? Nós dois. Nós dois? Meio a meio. Jesus, eu bebo mesmo que nem homem… Deve ter sido isso. Isso o que? Isso que me fez descobrir que os meus dois acontecimentos mais importantes do ano nasceram no mesmo dia, mês, ano e hora. Isso mesmo, na mesma hora. Tivesse a mãe de um deles decidido parir no Brasil, e não no Canadá, eles seriam exemplares iguais de seres tão diferentes. A informação desceu quadrada junto com o último gole do chope final. O gole quente. Fosse possível juntar a afinidade intelectual que tenho com um, e a afinidade fundamental que tenho com o outro - vida, carinho, a segurança do abraço conhecido - estaria aí o ser ideal.
Muito estranho.
Almoço de domingo. Quatro sentados da mesa ao ar livre. A chuva deu uma folga, mas o céu continua cinza. Dezembro no Rio não é dourado, em 2008, o final do ano é cinza. Um passarinho faz cocô no meu braço. Êca, vou limpar. É sorte, os outros três entoam em coro. Sorte nada, vou limpar. Levanto, lavo, sento de novo. E a cena se repete. Como se não existisse tempo. Como se estivéssemos sempre encontrando as mesmas pessoas, os mesmos signos, a mesma merda de pássaro no braço.
Muito estranho.
Mistérios de dezembro chuvoso. Pequenos sinais alertam que o caminho é mesmo este.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Dois mil e oito em fotos

Uma retrospectiva em imagens. 365 dias em 120 fotos. Aquela sensação de que tudo é muito grande. E belo. E muitas vezes triste.

http://www.boston.com/bigpicture/2008/12/the_year_2008_in_photographs_p.html