quarta-feira, 8 de abril de 2009

Lá pelos vinte anos

Travessa, da Ouvidor. Meus olhos se perdem pelas bancadas repletas de livros. Tabucchi, Tezza, Safran Foer. Todos eles representantes dos meus vinte anos. Quando eu tinha vinte anos vinha ao Centro de havaianas, devorava livros, descobria a Lapa, dava os primeiros tragos, aprendia a andar de metrô e me arriscava por Santa Teresa. E agora, bem agora que eu volto ao Centro, os livros estão de novo em cima da bancada. Até Chico Buarque lançou um novo título – Budapeste é de quando eu tinha vinte anos. E a rua vai ganhando esse ar de lembrança. E o Metrô traz memórias. Ainda olho atenta as portas que se abrem na estação do Flamengo. O saxofonista da Carioca ainda toca os mesmos acordes, mesmo que o Largo esteja muito estranho sem os livreiros, pintores de retratos e vendedores de bugigangas. Ando pelo Centro como se tivesse vinte anos. Talvez o tempo seja mesmo um círculo fechado sobre si mesmo, repetindo-se de forma precisa, infinitamente. Talvez o tempo seja como um cursor de água, ocasionalmente desviado por algum detrito, por uma brisa que passa, e de vez em quando, algum distúrbio cósmico faça com que um riacho de tempo se afaste do leito principal para encontrá-lo rio acima; e quando isso acontece, faz com que pássaros, terra, pessoas sejam apanhadas no braço que se desviou e repentinamente transportadas para o passado. Isto é idéia do físico Alan Lightman, autor das Sonhos de Einstein, e talvez seja o meu caso.

quarta-feira, 25 de março de 2009

segunda-feira, 16 de março de 2009

Double cheeseburguer pra viagem

Dizer eu te amo é tão banal quanto pedir um cheeseburguer.
Aqui dentro sou uma fábrica de cheeseburguer.
Double cheeseburguer, digo na soleira da porta.
Cheeseburguer ao cubo, no téte-a-téte.
Uma loja de cheeseburguer padronizada em cada bairro da cidade.
Cheesebuguer com queijo escorrendo pela borda do pão.
No abraço, eu tenho o monopólio da produção mundial de cheeseburguer.

Um tipo de loucura qualquer

Filhos que andam por aí fantasiados
Uma fada correndo pelo shopping
Um homem aranha de três anos
unhas azuis nos dedos da mão, da mãe

Quero me fantasiar de adolescente,e sonhar com filhos
crianças que falam sem parar, correndo
boca suja de chocolate.
Nunca é cedo demais para chocolate.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Da ilustração

O desenho de Luiza Pannunzio que ilustra o conto O Forasteiro que aprisionava as almas, escrito por Ana Miranda, para a revista Bravo! deste mês, me deu vontade de arrancar a página e mandar colocar moldura. Me deu também vontade de escrever - coisa tão rara nestes tempos que até dá um aperto aqui dentro do peito. É que enquanto o pescador sonha com uma chuva de anzóis e o bolso da camisa repleto de iscas, a menina de vestido de bolinhas e pé de pato foge do jacaré. Sem aceitar ajuda, nada sob os anzóis que caem do céu, tão ágil quanto uma tartaruga. A menina aproveita para pensar na vida enquanto se afoga. É que fizera um estoque de ovos e passara boa parte do tempo pisando neles.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Deixa o verão para mais tarde

Da janela do ônibus a cidade ganha outras formas. O Rio é uma grande avenida. Bailarinas tornam-se equilibristas, inebriadas tentam aguentar o peso do próprio corpo ao procurar sem sucesso apoio no ombro de palhaços que tropeçam nos próprios sapatos. Gargalhadas ecoam nas esquinas. A columbina aguarda a chegada do pierrô, mágico de peruca rosa. Vem meu amor, vem ver a banda passar. Esse ano eu não vou de marinheiro, nem de pirata. Esse ano eu vou assistir de camarote. Deixa o verão para mais tarde. A caixa de fantasias jaz intacta. Ali tem tapa olho de pirata, pulseira de cigana, chapéu de cowboy. Tem colar de havaiana, cartola de purpurina, confete, serpentina. Tem notas de um samba não cantado neste domingo de carnaval.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Suspira

Tudo em branco. Até que a nova caneta de pena - réplica idêntica a usada por Shakespeare - riscou a folha. A tinta manchou o dedo do meio e, como no naquele filme que ela esquecera o nome, já não havia mais como esconder que era escritora, ou fora. Um dia qualquer, quando as palavras surgiam com mais facilidade e a angústia morava no peito, fora escritora. Desta vez ela somente assinara seu nome. Afirmação. A pena era fora de época. Utensílio de outro século.

A mancha preta de tinta no papel, a mariposa no azulejo, o borrão na mente branca. O fim da clareza. A gente enterra o amor pensando que ele nunca mais vai aparecer. Até que chega o dia onde todas as palavras ganham sentido. E o borrão se espalha. E branco nunca mais é branco. Horizonte e ar ganham formas humanas. O outro é tudo que é preciso para respirar.