quarta-feira, 7 de abril de 2010

Mudanças radicais paralisam

Já mudei algumas vezes de casa, tantas de trabalho (é quase a mesma coisa que casa), mudei até de vida outras vezes, ainda assim, paraliso. Ninguém adoece sozinho, você sabe. Um vai virando o outro, o outro vai virando um, e quando percebe-se não se sabe mais quem é quem. E eu sei que você quer me esganar. Eu sei que existe uma outra vida lá dentro, que as vezes tudo se perde, se confunde. É como eu disse, paralisa.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Quando o mundo se mexe, escrevo

Casamento não é garantia de felicidade. Amor também não. Não dá para ter certeza de nada. Freud é foda, quando a gente menos espera ele está lá, com olhos observadores e ouvidos atentos, a espera do menor deslize. Não dá para relaxar. Pode ser Édipo. Aposto que também existe um nome para aquele outro complexo quando a gente copia a história dos próprios pais. Não adianta tentar fugir, gente analizada é foda. Pode ficar cinco anos sem deitar no divã, mas a cabeça programa, não deixa passar nada desapercebido. É fácil saber: quando o mundo se mexe, lá vem.

Notícias

F.,

Não é preciso estar longe da família para saber que no final das contas são os amigos que fazem a nossa vida mais gostosa, mas talvez a distância - e digo talvez porque, diferente de você, eu não sei muito bem o sentido da palavra distância – seja mesmo fundamental para perceber isso.

A gente não tem se visto muito - e quando digo a gente, me refiro ao nosso quarteto que em outros tempos dividia colarezinhos com chapinhas de coca-cola e fazia tudo junto. Mesmo sem muitas notícias da L., por exemplo, posso dizer que, assim como você, eu, ela e a P. estamos lutando para, nas suas palavras, “decidir a vida”. Cada uma do seu jeito, como sempre foi, como se tivéssemos o poder de realmente assegurar o futuro, como se cada pequeno gesto fosse indispensável para uma vida feliz.

A P. já é uma dona de casa exemplar, mulher de negócios sagaz, mestre de obras que até parece que tem diploma e ainda desfila o salto alto pelas ruas da cidade, mas perua que só ela, foge para Angra em qualquer fim de semana. E sim, ela ainda faz parecer que tira a tarefa de letra. Sobre a L. eu não sei mesmo, ela não liga e tampouco nos esbarramos por aí. Deve estar atarefada com a pós, procurando uma nova alternativa de emprego e descobrindo como é gostoso viver a dois. E eu, bem, eu é sempre mais complicado, mais sentido, mais doído, mais uma fantasia que vida real. Bem, assim como você, quero encontrar um lugar para ficar por um tempo, ou quem sabe para sempre, um cantinho gostoso, cheio de almofadas coloridas, cheiro de pão francês e café ao amanhecer e uma manta quentinha nos pés antes de dormir abraçado. É mais complicado do que parece, tentar ter uma casa e dar os primeiros passos no sentido de construir uma família. O Tom se assusta, com razão, quando eu falo em filhos. Nem ele, nem eu, ainda nos acostumamos a pensar em nós mesmos como adultos. Você já reparou como os nossos pais sempre parecem ter mais idade em fotos antigas? Com a minha idade a minha mãe já tinha dois filhos, um segundo casamento e uma casa grande cheia de empregados. Ou eles eram muito maduros, ou nós somos mesmo muito retardados.

Enfim, a minha maior novidade é uma saia cinza de cintura alta bem justinha. Ontem saí com ela por aí, e se esbarrasse comigo aposto que você nem acreditaria que sou eu, confesso que eu também demorei a me acostumar. Eu e o corpo. Vê só, as coisas não mudaram muito por aqui. Sempre vai ter o dilema do corpo.
A P. sempre vai arrumar o topete. A L. terá a mesma gargalhada. E espero que você esteja sempre com o seu sorriso. Não deixe o inverno, nem os italianos te deixarem no sério.

Beijos,

Anna


terça-feira, 27 de outubro de 2009

Striptease*

*com trechos e ideias de Fernando Pessoa, Mario Quintana e Maria Resende

Vamos tirar a roupa. Juntos. Peça por peça. Prometo deixar você me conhecer. Prometo ser sua amiga e sua amante. Prometo te apoiar a cada instante. Prometo não deixar a paixão fazer de mim uma pessoa controladora, respeitar a sua individualidade e lembrar que você não me pertence, mas que está ao meu lado por vontade própria. Prometo não falar mal de você só para conseguir risadas dos outros.

Vamos tirar a roupa. Até que, nus, estejamos devidamente preparados para a celebração. Só um olhar sincero basta. Não precisa bolo, não precisa roupa, pode ser no padre, no juiz ou só no banco, porque o sim mora dentro da felicidade dos dias.

Vamos, com coragem, tirar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares.

Vamos tirar a roupa. Juntos. Eu desabotôo a sua camisa. Você tira a minha blusa. Vamos, peça por peça, como fizemos pela primeira vez - e já faz tantos anos. Você segura a minha mão. E, mesmo assim, não deixaremos que a palavra liberdade seja menos importante em nossas vidas do que é hoje. É tempo de travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.

Vamos tirar a roupa. Prometo fazer sexo sem pudores. E filhos por amor e vontade, e não porque é o que esperam de mim. Prometo sempre me responsabilizar por mim mesma e saber sempre lidar com a minha própria solidão, sentimento que casamento nenhum elimina. E depois disso tudo, prometo fazer da passagem dos nossos anos uma vida de amadurecimento e não uma via de cobranças e sonhos idealizados que não chegaram a se concretizar.

Vamos sabendo que somos felizes sozinhos, mas muito mais felizes juntos.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Rising Star

Eu sempre li mais que do que dancei, sempre escrevi mais do que cantei. A culpa é da Aline. Aline é minha prima, filha do irmão do meu pai. Desde que aprendi a andar, talvez até mesmo um pouco antes disso, o engatinhado da Aline já tinha um rebolado. A Aline nasceu como uma coisa, uma cor de pele mais morena, uns cachos bonitos e, mais do que isso, um requebrado que sei lá. Se um dia quiserem estabelecer a imagem de uma brasileira no sentido mais esteriotipado da palavra, podem usar uma foto da Aline. Então não tinha outra, se era final de semana, se os primos estavam todos na casa da minha vó Marisa, tinha show da Aline. Da Aline e da Carol. Carol era eu. Uma menina branquinha, de cabelo liso escorrido, assim, meio sem graça, e sem ritmo. Aí a Aline me colocava para dançar. A brincadeira era a seguinte: a Aline era a Xuxa e eu era a Paquita. Às vezes tinha a Paula também, outra prima, que fazia dupla comigo de vez em quando. A Aline ficava na frente, segurando o microfone, e eu e a Paula atrás, tímidas, praticamente dançando ula-ula. E dá-lhe playback – de Diana Krall a Daniela Mercury.

Isso tudo é para explicar que no fundo eu sou e sempre fui uma artista frustrada. Não sei tocar nenhum instrumento, não afino nenhuma nota, e na hora de falar em público eu meio que congelo. A primeira fez que eu vi a Binki Shapiro no palco, uma luzinha acendeu dentro de mim. Na boa, se aquela menina podia ficar ali sentada num banquinho, linda, só chacoalhando um chocalho, e ainda tirando onda de artista, eu também podia – depois me explicaram que o chocalho é difícil pacas, mas não vem ao caso agora, o que importa é a luzinha acendeu e eu senti que aquele momento era o primeiro brilho de uma estrela.

>Muitos Litlle Joys, Killers, Franz Ferdinands e Keanes depois eu descobri algo que transformaria a minha fagulha estrelar em cometa Halley: Rock Band e Guitar Hero. Não é a toa que os jogos eletrônicos venderam milhares de exemplares em tempo recorde. Eu não só consegui tocar uma guitarra, como cantei e ainda me senti uma super star. A minha sorte, e dos meus vizinhos, é que eu não tenho o jogo, porque se tivesse ia ficar tocando clássicos do rock`n roll a noite inteira. Sem falar na roupinha rock star que eu ia descolar. E pensando bem, a mesa da sala bem que daria um bom palco. Quem sabe eu chamo a Aline para backing vocal...

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Fagulhas - de Ana Cristina César

Eu sei que texto dos outros não vale, mas é tão lindo...


Abri curiosa o céu. Assim, afastando de leve as cortinas. Eu queria rir, chorar,
ou pelo menos sorrir, com a mesma leveza com que os ares me beijavam.
Eu queria entrar, coração ante coração, inteiriça, ou pelo menos mover-me um pouco, com aquela parcimônia que caracterizava as agitações me chamando.

Eu queria até mesmo saber ver, e num movimento redondo como as ondas
que me circundavam, invisíveis, abraçar com as retinas cada pedacinho de matéria viva.

Eu queria (só) perceber o invislumbrável no levíssimo que sobrevoava.

Eu queria apanhar uma braçada do infinito em luz que a mim se misturava.

Eu queria captar o impercebido nos momentos mínimos do espaço nu e cheio.

Eu queria ao menos manter descerradas as cortinas na impossibilidade de tangê-las.

Eu não sabia que virar pelo avesso era uma experiência mortal.


segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Minha pergunta para mim

Anna, por que você começou a escrever esse blog?

Há em mim algo de desconhecido. Um lado meio escondido, esquecido, povoado de sonhos, idealizações, cheio de desejos reprimidos. Um lugar lá no fundão de mim mesma. Escrever é entrar um pouco em contato com esse lugar. O problema é que é muito dificil olhar para dentro quando há tanta coisa boa do lado de fora. A felicidade seduz. O lado de dentro sempro funcionou como uma fuga do mundo real. Agora, tenho que arrumar novos motivos para visitá-lo.