segunda-feira, 6 de julho de 2009

Feca,

Tenho a impressão que saí correndo pelo tempo. Imagina só, uma menina de cabelos castanhos, All Star desamarrado, correndo pelas memórias. No fundo, Brand New Start, do Little Joy. Na cara, um sorriso travado e a sensação de paz profunda. Está tudo assim, agora, travado num sorriso contínuo, guardado no abraço apertado, na corrida pelo tempo. Num momento estou no metrô em direção ao Centro, no outro, danço vestida de branco no jardim da minha casa, em um futuro próximo, e em seguida estou em uma daquelas festinhas que freqüentávamos ao quinze anos, de body e botas, ou cinto de tachas e jaquetinhas de couro, o que você preferir. Quem achava que eu era avoada e sonhadora, nem imagina os riscos que corro agora. Com todas essas viagens pelo tempo, corro perigo de me perder e nunca mais me encontrar. O que não é de todo mal, se eu me substituir por uma nova pessoa, mais objetiva, responsável, concentrada. Não, retiro o que eu disse, essa pessoa seria uma chata de galocha. Ainda bem que as pernas são roliças e não ficam nada bem nessas botas até o joelho. No inverno, cariocas usam botas até o joelho, acredite. Uma das coisas mais difíceis de estar junto é aprender a estar separado. Acho que é por isso que ando freqüentando muito o passado. Saudade também é um fator. Sei lá, eu queria mesmo que tivessem me dito antes que essa coisa de ficar noiva não é assim tão fácil. São muitos planos, e tenho passado uma boa parte do tempo no futuro. Imagino a festa, a casa, a rotina. Quando vejo estou entrando no banheiro masculino do shopping. Juro que aconteceu. Só percebi que o lugar era só para homem, quando um menininho me olhou com uma cara estranha ao sair da cabine, e o faxineiro tocou no meu ombro. Fiquei roxa de vergonha.

Apesar das andanças, a alma está bem mais sossegada. Falta até inspiração para escrever. Pode ser também falta de hábito. Já te contei que saí do JB? Trabalho agora numa nova produtora musical, voltada para o mercado independente. Um pouco estranho, se tratando de mim, né? A gente vai ficando mais velha e o fator salário começa mesmo a pesar, agora escrevo muito menos do que gostaria...

Fiquei feliz em ter notícias suas. Queria mesmo é que essa conversa fosse ao redor de uma mesa de madeira servida com uma daquelas macarronadas que só você prepara. Aliás, nem te conto a minha mais nova aptidão: estou aprendendo a cozinhar. Num desses finais de semana, eu e o Tom quase morremos depois de nos alimentarmos unicamente de pizza e cachorro quente. Se esse casamento for durar para sempre, é melhor alguém aprender a fazer alguma coisa na cozinha. Semana passada foi carne assada com batatas, essa semana foi peixe com cuscuz marroquino. Todas as terças, reúno a família na sala de jantar e faço deles minhas cobaias. É quase maligno...

Dê notícias, Feca, ando pelo tempo com saudades.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

A felicidade pode vir numa caixa

Eu tinha vinte e seis anos no dia em que ele colocou a caixinha em cima da mesa. A caixinha de papelão em cima da mesa redonda do bistrô vazio. Todos os meus sonhos dentro da caixinha de papelão naquela noite chuvosa. O resto da minha vida naquela noite chuvosa. Ele disse “não vai abrir?” e eu pedi um tempo. Só mais alguns minutos para observar todos os meus sonhos dentro da caixa. “A felicidade está ao alcance de todos”, eu disse certa vez a uma amiga. Estávamos dentro de uma grande loja de roupas a preços populares e ela acabara de me mostrar um anel de brilhantes de plástico. “Felicidade para você se resume em recebe um anel de brilhantes?”, ela perguntou. Caímos na gargalhada e a frase ficou grudada na minha cabeça. Não muito tempo depois, eu tomava vinho tinto em um bistrô vazio, numa noite chuvosa de abril, quando a caixinha foi posta sobre a mesa redonda. Eu queria ficar para sempre olhando a caixinha de papelão azul e branca. Sabia que aquela não era só mais uma caixa, que um anel não era felicidade, que ele não seria mais meu namorado. O segredo era o significado por trás do gesto. Naquela noite chuvosa de abril, uma caixinha de papelão era uma escolha de vida, o anel era um pedido de cumplicidade, ele era o homem com o qual eu passaria o resto da minha vida. E por isso eu relutei em abrir a caixa, na tentativa de aproveitar ao máximo aquilo tudo. Antes que ele ajoelhasse ao meu lado, antes que meus olhos enchessem de lágrimas, antes que ele perguntasse se eu não ia dizer que sim, antes que eu respondesse que ele não tinha pedido nada, antes que as palavras “você quer casar comigo?” saíssem da boca dele. Antes que fôssemos felizes para sempre. Por que momentos como aquele, só acontecem uma vez.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Lá pelos vinte anos

Travessa, da Ouvidor. Meus olhos se perdem pelas bancadas repletas de livros. Tabucchi, Tezza, Safran Foer. Todos eles representantes dos meus vinte anos. Quando eu tinha vinte anos vinha ao Centro de havaianas, devorava livros, descobria a Lapa, dava os primeiros tragos, aprendia a andar de metrô e me arriscava por Santa Teresa. E agora, bem agora que eu volto ao Centro, os livros estão de novo em cima da bancada. Até Chico Buarque lançou um novo título – Budapeste é de quando eu tinha vinte anos. E a rua vai ganhando esse ar de lembrança. E o Metrô traz memórias. Ainda olho atenta as portas que se abrem na estação do Flamengo. O saxofonista da Carioca ainda toca os mesmos acordes, mesmo que o Largo esteja muito estranho sem os livreiros, pintores de retratos e vendedores de bugigangas. Ando pelo Centro como se tivesse vinte anos. Talvez o tempo seja mesmo um círculo fechado sobre si mesmo, repetindo-se de forma precisa, infinitamente. Talvez o tempo seja como um cursor de água, ocasionalmente desviado por algum detrito, por uma brisa que passa, e de vez em quando, algum distúrbio cósmico faça com que um riacho de tempo se afaste do leito principal para encontrá-lo rio acima; e quando isso acontece, faz com que pássaros, terra, pessoas sejam apanhadas no braço que se desviou e repentinamente transportadas para o passado. Isto é idéia do físico Alan Lightman, autor das Sonhos de Einstein, e talvez seja o meu caso.

quarta-feira, 25 de março de 2009

segunda-feira, 16 de março de 2009

Double cheeseburguer pra viagem

Dizer eu te amo é tão banal quanto pedir um cheeseburguer.
Aqui dentro sou uma fábrica de cheeseburguer.
Double cheeseburguer, digo na soleira da porta.
Cheeseburguer ao cubo, no téte-a-téte.
Uma loja de cheeseburguer padronizada em cada bairro da cidade.
Cheesebuguer com queijo escorrendo pela borda do pão.
No abraço, eu tenho o monopólio da produção mundial de cheeseburguer.

Um tipo de loucura qualquer

Filhos que andam por aí fantasiados
Uma fada correndo pelo shopping
Um homem aranha de três anos
unhas azuis nos dedos da mão, da mãe

Quero me fantasiar de adolescente,e sonhar com filhos
crianças que falam sem parar, correndo
boca suja de chocolate.
Nunca é cedo demais para chocolate.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Da ilustração

O desenho de Luiza Pannunzio que ilustra o conto O Forasteiro que aprisionava as almas, escrito por Ana Miranda, para a revista Bravo! deste mês, me deu vontade de arrancar a página e mandar colocar moldura. Me deu também vontade de escrever - coisa tão rara nestes tempos que até dá um aperto aqui dentro do peito. É que enquanto o pescador sonha com uma chuva de anzóis e o bolso da camisa repleto de iscas, a menina de vestido de bolinhas e pé de pato foge do jacaré. Sem aceitar ajuda, nada sob os anzóis que caem do céu, tão ágil quanto uma tartaruga. A menina aproveita para pensar na vida enquanto se afoga. É que fizera um estoque de ovos e passara boa parte do tempo pisando neles.